entre chegadas e partidas
sem lenço, sem documento…Arquivo de novembro, 2010
“Amor só é bom se sofrer”
Separação
Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.
Viu-a assim por um lapso, em sua beleza, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.
Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.
Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento a sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…
Vinícius de Moraes
Faça sua parte!
MUNDO MELHOR
Você que está me escutando
É mesmo com você que estou falando agora
Você que pensa que é bem
Não pensar em ninguém e que o amor tem hora.
Preste atenção meu ouvinte
O negócio é o seguinte: a coisa não demora
E se você se retrai
Você vai entrar bem, ora se vai!
Conto com você, um mais um é sempre dois
E depois bom mesmo é amar e cantar junto
Você deve ter muito amor pra oferecer
Então pra que não dar o que é melhor em você.
Venha me dê sua mão
Porque sou seu irmão na vida e na poesia
Deixe a reserva de lado
Eu não estou interessado em sua guerra fria.
Nós ainda havemos de ver
Uma aurora nascer num mundo em harmonia
Onde é que está sua fé?
Com amor é melhor, ora se é!
Por Pixinguinha e Vinícius de Moraes
Download da versão por Vinícius de Moraes, Toquinho e Clara Nunes
Soneto de amor
SONETO XIV
Ama-me por amor do amor somente
Não digas: Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente
Minh’alma em comunhão constantemente
Com a sua. Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.
Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se em mim
Secar, por teu conforto, esta vontade
De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.
Por: Elizabeth Barrett Browning
Tradução: Manuel Bandeira
Pura verdade…
Rapaz de Bem
Você bem sabe eu sou rapaz de bem
A minha onda é a do vai e vem
Pois com as pessoas que eu bem tratar
Eu qualquer dia posso me arrumar
Vê se mora!
No meu preparo intelectual
É o trabalho a pior moral
Não sendo a minha apresentação
O meu dinheiro só de arrumação
Eu tenho casa
Tenho comida
Não passo fome, graças a Deus
E no esporte eu sou de morte
Tendo isto tudo eu não preciso de mais nada, é claro!
Se a luz do sol vem me trazer calor
E a luz da lua vem trazer amor
Tudo de graça a natureza dá
Pra que que eu quero trabalhar??
Por Johnny Alf
Versão com o próprio Johnny e banda em 2005:
Versão por Baden Powell no programa Ensaio:
Entre palavras e imagens – 15º ato
Conflito
O que acontece então?
Se tudo está certo
Acaba que não finzaliza
Tá por um fio
Mas não completa
As mãos não conseguem se tocar
Os envolvidos não querem
São de espécies diferentes
Como personagens de um conto qualquer
Fingindo sobre essa realidade
O que seria real afinal?
Acho que é o que vale mesmo para cada um
São seus princípios, suas atitudes
Tudo cada vez mais “down”
Nesses dias tumultuados
Então, por fim
Ficam rodando em círculos
Meros patinhos na lagoa
Distribuindo sorrisos nesta posição
Não sabem mesmo o que é felicidade
Seguem na busca de verdades
Só se atrelam em mentiras
Pra encher o saco, sabe?
Pra atrasar a vida dos outros
Porque no fundo não são honestos
Preferem o puro lero-lero
De um lado pro outro
Igual ping-pong
Não pensam em resolver,
Sim em retardar.
E o tempo é curto
Ainda há muito o que fazer
Existe a hora de concluir
Simplesmente pra terminar
PRA EVOLUIR!
Mais um pouco do poetinha
SONETO DE FIDELIDADE
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
*Por Vinícius de Moraes
Estoril – Portugal, 1939
ou
Download numa versão de “Eu Sei Que Vou Te Amar” por Vinícius de Moraes, Toquinho e Maria Creuza
